O El Dorado colombiano

Todo jogador de futebol sonha em ir jogar na Europa, onde se paga melhor e estão os maiores craques. Essa é a realidade hoje, mas, por um breve período meio século atrás, o Éden dos boleiros foi um dos mais improváveis lugares: a Colômbia. Uma sucessão de coincidências e ideias mirabolantes fez com que, do dia para a noite, o país andino ostentasse um campeonato endinheirado, que drenava atletas dos vizinhos sul-americanos e, sim, até mesmo do Velho Continente.

Tudo começou em Barranquilla, cidade portuária no delta do Rio Magdalena, o principal do país. Na condição de anfitriã de muitos navios e, consequentemente, marinheiros ingleses, Barranquilla foi a porta de entrada para o futebol na Colômbia, a partir dos bate-bolas disputados pelos visitantes britânicos já desde o século XIX. O esporte, porém, só começou a se espalhar pelo resto do território anos mais tarde, com a industrialização tardia do país, impulsionada pela economia cafeeira que começava a se destacar.

Quando a bola começou a rolar nas importantes cidades do interior, Barranquilla já era sede de uma liga amadora, a Adefútbol. O advento do profissionalismo, “importado” das nações vizinhas no fim dos anos 40, fez surgir em Bogotá uma nova organização: a División Mayor Del Fútbol Profesional Colombiano, ou DiMayor, como ficou conhecida. Desde o início as duas entidades não se bicaram. A inimizade chegou ao ponto de a Adefútbol solicitar à FIFA que não reconhecesse a DiMayor e seus clubes como representantes do país. Foi atendida. Os principais times da Colômbia estavam, portanto, banidos de competições ou mesmo amistosos internacionais, e não eram chancelados pela FIFA.

O que poderia ser uma ruína foi convertido em bênção pelo pensamento rápido do cabeça da DiMayor. O advogado Alfonso Senior, fundador da entidade e presidente do Millonarios de Bogotá, percebeu que se os clubes da DiMayor não tinham direito às vantagens de estar sob a guarida da FIFA, também não precisavam cumprir os deveres e normas que isso implicaria. Como por exemplo, o pagamento do passe nas transferências de jogadores. Livres dessa restrição, os clubes poderiam gastar mais em salários e montar a folha de pagamentos mais atraente do planeta bola: um El Dorado moderno. Com esse trunfo debaixo do braço, Senior não hesitou: enviou o técnico do Millonarios, Carlos Aldabe, à Argentina, com ordens expressas para trazer de lá um jogador de respeito para a temporada de 1949, que daria início ao El Dorado.

Alfonso Senior, ao centro, na reunião de fundação do Millonarios: Artífice do El Dorado (Imagem: site oficial Millonarios)

A opção pelo futebol argentino não foi acaso ou palpite. A seleção do país vencera quatro Copas América nos anos 40 e era tida por muitos como a grande equipe mundial da década. Além disso, havia La Máquina. Assim foi apelidado o extasiante esquadrão do River Plate daquele tempo, vencedor de quatro títulos nacionais, representado por uma linha ofensiva das mais brilhantes a já ter se reunido sob o mesmo escudo. Em 49, porém, os jogadores que fizeram a fama daquele time já estavam envelhecidos e alguns nem sequer jogavam mais pelo River. Foi um desses que Carlos Aldabe seduziu: o centroavante Adolfo Pedernera, então no Huracán.

Mas não foi só a proposta generosa do Millonarios que convenceu Pedernera a deixar a Argentina. O futebol local pegara fogo no ano anterior com uma greve de jogadores. O forte sindicato da classe paralisou a competição em protesto contra calotes aplicados pelos clubes menores em seus atletas: firmavam contratos que não podiam cumprir, deixando de pagar os salários. O governo posicionou-se contra o movimento e os clubes logo retomaram as atividades com juvenis nas vagas deixadas pelos rebelados. A torcida voltou aos estádios e os jogadores grevistas saíram derrotados. Pedernera, um deles, decidiu então abandonar o país e tentar a sorte no novo El Dorado. Não se arrependeu, pois, segundo ele próprio, encontrou condições profissionais muito melhores do que na Argentina.

Não foi o único. Já no ano seguinte, 57 argentinos atuavam na DiMayor. Um deles era um jovem meia que começou sua carreira em La Máquina e foi persuadido por Pedernera a também explorar as possibilidades da liga: ninguém menos do que Alfredo Di Stéfano, também contratado pelo Millonarios. Outro clube de Bogotá aproveitou a brecha explorada por Alfonso Senior, mas foi ambicioso a ponto de recrutar jogadores na própria fonte do futebol. O Independiente Santa Fe era presidido por Luis Robledo, um diplomata radicado na Inglaterra. Ele trouxe de lá Neil Franklin e George Mountford, do Stoke City, e Charlie Mitten, do Manchester United. Audaz também foi o Cúcuta Deportivo, que acertou com Schubert Gambetta e Eusebio Tejera, defensores campeões do mundo pelo Uruguai. O futebol do Brasil também teve suas baixas graças à atração do El Dorado. A base tupiniquim foi o Junior Barranquilla, e para lá foram, entre outros, os já veteranos Tim e Heleno de Freitas.

Heleno de Freitas, ainda no Botafogo: um dos brasileiros que foi explorar o El Dorado (Imagem: Futebol Arte)

A DiMayor era um sucesso absoluto. Seus times eram fenomenais, o dinheiro fluía sem parar, havia gols a rodo para todos os gostos. Na primeira temporada do El Dorado, a de 1949, o artilheiro foi o argentino Pedro Cabillón, do Millonarios, que estabeleceu uma marca até hoje insuperada na Colômbia: 42 tentos. O Millonarios, aliás, estava na vanguarda do espetáculo. Foi a grande equipe daquela fase, vencedora de quatro dos cinco títulos nacionais disputados durante o El Dorado (a exceção foi 1950, quando o Once Caldas levantou o troféu). Liderados em campo com genialidade por Di Stéfano, em exuberante fase, o time ganhou o apelido de El Ballet Azul. A rotina era a seguinte: golear o adversário para garantir a vitória, e então começar o baile, com um show de passes, dribles, fintas e firulas.

O governo colombiano dava o maior apoio, inclusive financeiro. O país vivia, no fim da década, um período que entrou para a história com o nome de La Violencia, uma verdadeira guerra civil motivada pelo assassinato ainda obscuro do prefeito de Bogotá, Jorge Eliécer Gaitán, favorito para as eleições presidenciais de 1948. Gaitán reunia massas de seguidores com sua plataforma de profundas reformas sociais, e sua morte acendeu um pavio que quase fez o país ir pelos ares. Centenas de milhares de pessoas pereceram nos conflitos. Nesse contexto, o presidente Mariano Ospina Pérez ficava mais do que satisfeito em bancar os protagonistas da principal distração com a qual o povo colombiano podia contar naqueles anos tumultuados.

Quem acabou decretando o fim do El Dorado foi seu próprio motivador. Alfonso Senior, um prestigiado dirigente, ganhou um posto na direção da FIFA em 1951. O convite obrigava Senior a tomar uma decisão: sua liga ou seu cargo. Uma série de acordos foram trançados para determinar o destino da DiMayor. No que ficou conhecido como Pacto de Lima, a liga foi liberada para manter suas atividades durante mais dois anos, quando seria então reconhecida pela FIFA e teria que passar a seguir as regras. O Millonarios aproveitou para realizar uma turnê mundial e exibir seus craques para os inevitáveis futuros compradores.

Com o fim do campeonato de 1953, seguindo o que havia sido determinado, o El Dorado se desfez. Os clubes negociaram seus jogadores, já dentro das regulações da FIFA, e fizeram pequenas fortunas que ainda sustentaram o futebol colombiano por alguns anos. Di Stéfano, o superastro do Millonarios, foi para a Espanha construir sua bela história no Real Madrid. A DiMayor ainda existe, e ainda organiza as duas principais divisões do campeonato nacional, mas com muito menos glamour. E ficou somente a lembrança daqueles anos de futebol mágico, quando o mundo foi em busca de ouro não nas montanhas e rios, mas nos estádios e gramados da Colômbia.

Di Stéfano, ao centro, com Néstor Rossi (e) e Adolfo Pedernera (d): O maior dos craques do El Dorado (Imagem: site oficial Millonarios)

TEMPORADAS
1949 Campeão: Millonarios / Vice: Deportivo Cali / Artilheiro: Pedro Cabillón (Millonarios), 42 gols
1950 Campeão: Once Caldas / Vice: Millonarios / Artilheiro: Casimiro Ávalos (Deportivo Pereira), 27 gols
1951 Campeão: Millonarios / Vice: Boca Juniors de Cali / Artilheiro: Alfredo Di Stéfano (Millonarios), 31 gols
1952 Campeão: Millonarios / Vice: Boca Juniors de Cali / Artilheiro: Alfredo Di Stéfano (Millonarios), 19 gols
1953 Campeão: Millonarios / Vice: Deportes Quindío / Artilheiro: Mario Garelli (Deportes Quindío), 20 gols

Texto originalmente publicado no blog Bola de Couro

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