Nesta semana foi aniversário da cidade do Rio de Janeiro, que completou 446 anos. Nossa forma de homenagear a Cidade Maravilhosa é recordar a história de uma das mais memoráveis e inusitadas partidas de futebol já disputadas por lá, e que entrou com justiça para o folclore futebolístico nacional. O ano era 1941, e Flamengo e Fluminense decidiam o Campeonato Carioca. Os dois grandes times tiveram como coadjuvante inesperado um dos cartões-postais da cidade (cuja participação acabou batizando o clássico com a alcunha reproduzida no título deste post): a Lagoa Rodrigo de Freitas.
O Carioca de 41 foi disputado em um sistema de fases e turnos. Na primeira fase, os dez times se enfrentavam em ida e volta, todos contra todos. Os seis melhores prosseguiam ao estágio seguinte, onde repetiam o formato de turno e returno. Ao fim da disputa, que somasse mais pontos nas duas fases combinadas arrebataria a taça. A primeira fase foi dominada pelo Flamengo, que perdeu apenas uma vez em 18 jogos e carregou uma vantagem de quatro pontos para o segundo colocado, Fluminense. Botafogo, Vasco, Madureira e Bangu também se classificaram, deixando para trás América, Canto do Rio, São Cristóvão e Bonsucesso. Na segunda fase o rubro-negro desandou, enquanto o tricolor fez bela campanha de recuperação. Os dois times chegaram à última rodada separados por cinco pontos, o Flu à frente. Apenas uma vitória flamenguista servia para reverter o quadro. Ao Fluminense, bastava o empate. O palco da decisão foi o Estádio José Bastos Padilha, a famosa Gávea, casa do Flamengo.
Aqui vale uma lembrança urbanística. Naquela época a Lagoa Rodrigo de Freitas era maior do que é hoje. Os anos 40 viram um processo de aterramento de parte da área da lagoa, para dar lugar a novas construções na região, o que acabou por valorizá-la, mas em 1941 esse processo estava apenas começando e ainda não havia atingido as proximidades da sede do Flamengo. Desta forma, as águas da lagoa alcançavam os muros do campo, um detalhe que seria muito importante para aquela final de campeonato em particular. Hoje, entre o estádio e a lagoa há o resto das dependências da Gávea e a sede de remo do clube, além da Avenida Borges de Medeiros.
Pois bem. Foi no dia 23 de novembro que o grande jogo aconteceu. O Flamengo, dono da casa, contava com o brilho do já veterano Domingos da Guia na zaga e via o surgimento de uma nova estrela em Zizinho, então com 20 anos mas já dono da posição no time titular. Outro destaque da equipe era o centroavante gaúcho Sylvio Pirillo, artilheiro do campeonato com 37 gols. Pirillo fora contratado do Peñarol no início do ano com a missão ingrata de substituir Leônidas da Silva, que cumpria condenação da Justiça Militar por falsificação de documentos. Apesar da difícil tarefa, Pirillo mostrava personalidade e ganhava a torcida. Do outro lado, um inesquecível Fluminense, detentor da taça estadual e em busca do bi, além de haver conquistado um tricampeonato entre 1936 e 1938. O ataque daquele time, avassalador, com mais de 100 gols marcados no torneio, tinha nomes como Tim, no auge, Romeu, um maestro, e, especialmente, o extravagante ponta-esquerda Carreiro, que teria um dia endiabrado.
Mesmo com a vantagem da igualdade, o time visitante preferiu lançar-se à frente. Em menos de meia hora o placar já apontava 2-0 para o Fluminense, cortesia de dois passes de Carreiro para gols de Pedro Amorim e Russo. Apesar de não marcar, Carreiro era o dono do jogo. O ponta era um tremendo espertalhão, afeito a malandragens durante as partidas e a levar na conversa árbitros e adversários. Franzino, provocava seus marcadores mais encorpados em busca de algum contato físico, para ter a chance de se fazer de vítima. Tinha alguma história de travessuras com o irascível goleiro flamenguista Yustrich: em um jogo anterior, Carreiro sorrateiramente espetara o calção do arqueiro nos ganchos de sustentação da rede do gol, para evitar que ele bloqueasse um cruzamento.
Carreiro, porém, tinha um adversário de peso. Quem apitava aquele Fla-Flu era o juiz José Ferreira Lemos, um ex-jogador do Botafogo mais conhecido como Juca da Praia. Juca era um dos grandes árbitros da época, e uma de suas principais qualidades no ofício era saber lidar com o temperamento e os caprichos dos atletas em campo. Em outras palavras, também era um malandro. Ele e Carreiro protagonizaram embates especiais naquela tarde, como quando o tricolor se embrulhou na área com Biguá e teve a camisa levemente rasgada. De imediato tratou de retalhar o restante da peça e armar um escândalo, exigindo a marcação do pênalti. Juca, macaco velho, mandou Carreiro ir passear e seguiu o jogo.
Ainda no primeiro tempo o Flamengo diminuiu com Pirillo. Na volta do intervalo, porém, o Fluminense começou a pôr em prática os primeiros contornos de sua estratégia de embromar. Em um lance casual, Russo correu para alcançar um lançamento de Romeu e chocou-se com a zaga do Flamengo, deixando escapar a bola. Yustrich quis cobrar o tiro de meta com pressa, mas Carreiro, sempre ele, impediu, reclamando que seu companheiro estava caído em campo. Yustrich, enfezado, rebocou Russo para fora com as próprias mãos e repôs a bola. Com insistência o Flamengo fez o segundo, novamente com Pirillo, aproveitando rebote. Faltavam então seis minutos para o fim do jogo. O Fluminense ainda tinha o resultado necessário para ser campeão, mas o Flamengo, com a torcida a favor, pressionava.
Mandando todos os escrúpulos para o raio que os partisse, o Fluminense, que se via em desvantagem moral com o empate flamenguista, passou a adotar um bizarro expediente para fazer passar o tempo. Toda vez que os tricolores apoderavam-se da bola, recuavam-na para o goleiro Batatais. Este ajeitava para o raçudo zagueiro argentino Renganeschi, que, por sua vez, enfiava vigorosamente o pé para atirar o esférico além dos muros do estádio. Mais precisamente, dentro da Lagoa Rodrigo de Freitas. Eram outros tempos e não havia grande disponibilidade de bolas, de modo que algumas poucas botinadas de Renganeschi bastavam para obrigar o Flamengo a ir recuperar o lote de dentro d’água.
Com o passar dos anos, consolidou-se a narrativa de um detalhe delicioso para esta história: incapaz de deter a artimanha do Fluminense e decidido a agilizar o resgate das bolas, o Flamengo teria acionado sua equipe de remo para servir de gandulas flutuantes. A cada chutão de Renganeschi, lá iam os remadores rubro-negros deslizando sobre a superfície da lagoa atrás da bola despachada, apenas para devolvê-la ao campo e, em pouco tempo, ter de persegui-la outra vez. A presença dos remadores foi estabelecida pelo jornalista e cronista Mário Filho em seu intenso e divertido relato da partida, mas o jornalista e pesquisador Roberto Sander, em seu livro Anos 40: Viagem à década sem Copa, em que dedica um capítulo ao jogo, garantiu que não há registros oficiais de nenhuma pá de remo pescando bolas da Lagoa Rodrigo de Freitas durante o clássico.
Seja como for, com ou sem remadores, o Fluminense passou vários minutos tratando de jogar bolas na lagoa para fazer passar o tempo. Estratagema que se revelou infrutífero. Acontece que, naquele tempo, o futebol contava ainda com a hoje extinta colaboração do cronometrista. Tratava-se de um camarada postado à lateral do gramado cuja única função era manusear um relógio e pressionar um botão quando a bola deixava os limites do campo, fazendo parar os ponteiros. O Fluminense podia chutar até a outra semana, mas o tempo só andaria com o jogo em movimento. De fato, já escurecia no Rio de Janeiro e os tais seis minutos ainda não haviam acabado.
O Flu acabou desistindo de incluir a Lagoa Rodrigo de Freitas na peleja e resolveu contar com a fibra de seus jogadores para segurar as pontas em campo. Batatais jogava com a clavícula deslocada, após levar um pisão de Pirillo, mas fazia defesa atrás de defesa. Carreiro, então, continuava aprontando, e acabou expulso. Após cometer uma falta no meio-campo, o jogador colocou-se na frente da bola, atrapalhando a cobrança, exigindo que o árbitro Juca da Praia contasse os passos para formação da barreira – mesmo sabendo que seria impossível que alguém quisesse chutar direto para o gol daquela distância. Juca, farto das estripulias de Carreiro, ordenou-lhe que deixasse o campo. Pretexto para que reunir uma aglomeração de tricolores em volta do juiz, protestando e protelando.
Mesmo com toda a persistência o Flamengo não conseguiu fazer o terceiro gol, e o resultado final de 2-2 deu o título ao Fluminense. Um título conquistado em um jogo que foi mais do que um simples jogo, foi uma saga. Muito apropriado para o clássico que, segundo palavras imortais, nasceu “quarenta minutos antes do nada”.

O time campeão: à frente, Batatais e Renganeschi, operadores da tática "bola na lagoa" (Imagem: Relíquias do Futebol)
FLAMENGO 2-2 FLUMINENSE
DATA: 23/11/1941
LOCAL: Estádio da Gávea
PÚBLICO: 15.312
ÁRBITRO: José Ferreira Lemos
FLAMENGO: Yustrich; Domingos da Guia e Newton; Biguá, Volante e Jaime; Sá, Zizinho, Pirillo, Reuben e Vevé. TÉC: Flávio Costa
FLUMINENSE: Batatais; Renganeschi e Machado; Mallazo, Brant e Afonsinho; Pedro Amorim, Romeu, Russo, Tim e Carreiro. TÉC: Ondino Viera
GOLS: Pedro Amorim, Russo, Pirillo (2)
Texto originalmente publicado no blog Bola de Couro


